A noite foi
agitada, senti-a virar na cama vezes sem conta e quando me levantei eu própria,
às 4.30h para terminar de lhe fazer a mala, em breve lhe senti os passinhos
leves corredor fora ao meu encontro…O dia que a P. esperava há tanto tempo,
amanheceu chuvoso e através da vidraça constatei receosa o estado da rua,
antevendo o estado da estrada pela qual seguiria a filhota com os amiguinhos do
ATL rumo à Serra da Estrela onde passará dois dias, cheios de atividades!
Não é a
primeira vez que parte em colónia e o ATL é do colégio onde sempre andou até ao
4º ano e onde continua a andar agora no regime de apoio escolar, conhece todos,
todos a conhecem…e eu sei da qualidade que põem em tudo, nomeadamente na
segurança…No entanto, hoje…eu e ela…estávamos mais nervosas do que o costume…vá-se
lá saber porquê…ou talvez sabendo-o bem demais …do lado dela as emoções à flor
da pele da pré-adolescente em que está a tornar-se cada dia que passa, o conhecimento
de si e dos outros a perceção de muitas coisas novas e outras que o não são,
mas vividas nesta fase com mais intensidade «agora apercebo-me melhor que as
pessoas partem mãe…e não quero deixar nada por dizer»…confessava-me ela no
outro dia, no meio de uma conversa e de olhinho brilhante, perante o meu
espanto e apreensão de ver aquelas palavras, que podiam ser minhas, saírem da
sua boquinha doce de menina…! Do meu lado a preocupação com o momento que ela
está a atravessar, o perceber o que o contexto de doença do pai e da avó tem influenciado
o seu estar e o seu sentir, o saber o necessário que é que se afaste por vezes
em oportunidades como esta de passeio, mas ao mesmo tempo temendo por a ver
mais emocional do que o costume…! «Desta vez quero muito ir mãe…mas também
quero ficar!»… Depois de um abraço apertado apressámo-nos a terminar a mala,
mesmo a tempo dela abraçar também carinhosamente o mano que, meio estremunhado,
tinha aparecido na sala para se despedir e o pai que por ali também já andava
há muito, cuidando dos pormenores como ele sabe tão bem…! A porta do elevador
fechou-se sobre a imagem dos dois dizendo adeus à porta de casa e, já só comigo,
a minha filhota empatava enlaçada em mim «Não vais só levar-me …pois não? Ficas para
dizer adeus…»…«Claro que sim tolinha…alguma vez foi de outro modo???»…Na rua já
o entusiasmo se apoderara dela e na chegada ao ponto de encontro juntou-se
alegremente às amiguinhas, planeando mil coisas para estes dias…De repente porém
vejo-a correr para mim com ar sério
«Esqueci-me do cãozinho de Inglaterra…mãe…e agora?»…O dito cãozinho é o seu
companheiro de viagem…sempre que vai para longe, e escolheu-o entre centenas de
outros, quando tinha ano e meio numa loja em Londres, pelo que é muito especial
para ela…para além de ser uma espécie de bocadinho de casa que leva quando viaja sem nós…« Pois foi
filha»…anui sem saber o que fazer, mas sabendo que não tinha tempo para
voltar atrás…«mas desta vez tens o telefone portanto está sempre muito próxima
de nós…vai correr bem»…Ela voltou para as amigas…mas conhecendo-a como conheço
bem via a mudança…Procurei em mim forma de improvisar a solução mas hoje não
trazia fio nem pulseira…nada que lhe pudesse dar para levar…a não ser…a não ser…o lenço que
trazia ao pescoço…!E se depressa foi pensado...mais depressa foi feito…duas ou
três voltas e dois nós fizeram dele uma nova espécie de animal…não me atreveria
a dizer qual….mas sem pensar mais nada, ao vê-la já subir para o autocarro gritei-lhe « P. afinal ele veio!!!» e
atirei-lho pelo ar a tempo de ela ainda o apanhar…«Pois foi mãe!!!!», disse ela
percebendo de imediato e agarrando a pequena trouxa junto ao coração… e feliz lá
entrou finalmente, agora de gargalhada solta …!
Que tudo
corra bem querida filha que te divirtas, que passeies…que arejes um pouco
destes ares e venhas renovada!!!!
Eu …eu não
posso deixar de ter o coração apertadinho…mas isso…isso são coisas de mãe!
Bem hajam
queridos amigos!