
Hoje demos a mão à esperança e preparámo-nos para o que viria...afinal...respostas esperadas há já cinco meses, num caso, e bem mais do que isso, noutro...Estávamos calmos na ansiedade dominada que já tão bem conhecemos...Faltava apenas sair...Por pouco não atendia o número desconhecido no meu telefone...mas acabei por o fazer a intuição a comandar a mão. Do lado de lá informaram-me simplesmente...como se de coisa simples se tratasse, que tudo o que iríamos fazer hoje estava adiado...para quando? Pois não sei, não sabem, logo dirão..Porquê? Pois não sei, não sabem bem...nunca explicarão! As coisas acabarão por acontecer eu sei...haveremos de saber o que houver de ser...mas hoje a esperança foi adiada e a espera reiniciada com um saborzinho amargo a desilusão e o peso de uma resignação obrigada que nos entristece e revolta...a força que levávamos para a possibilidade de termos de enfrentar novas batalhas a esvair-se lentamente...a alegria que guardávamos secretamente no coração para as boas novas que almejávamos...agora perdida sem sentido...até mais ver...!
Manuel Forjaz um homem especial na vida e na morte sabia do que falava...e todos os que passam pelo IPO, percebem as suas palavras e o por detrás delas...reconhecem tudo o que relata e aspiram a tudo o que propõe...hoje fica-me a vontade de partilhar por aqui a carta que muitos já leram mas que para muitos felizmente tem apenas parte do sentido, já que a outra só é legível para quem vive a experiência.
"Exmo. Sr. Presidente do IPO,
Mui Ilustre Ministro da Saúde
Mui Ilustre Secretário de Estado da Saúde,
1 - Os doentes com cancro. não são mortos com cancro. estão vivos; uns duram uns dias, outros meses, outros anos, outros para sempre;
2 - Estarem vivos, significa poderem viver e experimentarem coisas maravilhosas, significa que a luta continua; significa também sempre alguma fragilidade e sensibilidade psicológica e emocional;
3 - No tratamento passamos muitas horas no IPO, em consultas, análises, testes, operações, quimios e pela simples circulação a pé pelas instalações não conseguimos tapar os olhos ao sofrimento dos outros; pessoas com tubos aqui e acolá, carecas, acinzentadas, borbulhosas, a gemerem, em urros, etc etc.; e isto afecta-nos, retira-nos esperança, agrilhoa-nos ao nosso próprio sofrimento, faz-nos esquecer de viver;
4 - Ora há pequenas coisinhas que poderiam ser feitas para melhorarem a vida de todos os que lá andamos, em particular nas salas de espera;
5 - Proponho que contratem a Partners (MSTF) p.e., Pro-Bono, para vos desenhar e produzir uns cartazes - a espalhar por todo o IPO – com as coisas/regras de que podem e devem as pessoas falarem quando dividem espaços muito pequenos com outros doentes:
O que devem contar, promover essas peças:
Das histórias de sucesso, de pessoas que venceram ou vivem com a doença;
Das coisas boas que continuam a fazer dia a dia;
De que estar em tratamento significa que a luta continua;
Que hoje a medicina avançou muito e permite muitas vezes uma vida longa com a doença em quase completo conforto;
Que todas as doenças são diferentes e portanto não se extrapolem conclusões, gritando-as no meio dos corredores, pré-crucificando quem por lá passeia;
E das coisas de que absolutamente não devem falar:
Que a Joana tem 3 meses de vida; (até porque normalmente não é verdade, acho que a maioria das pessoas não quer imaginações e conjecturas sobre o tempo que lhe sobra)
Que o seu marido tem um tubo a sair de um rim;
Que o Pedro, teu primo sofre dores horríveis que já não têm analgésicos;
Que a Susana tem um saquinho;
Que a Tia Sofia de Aljustrel tem metástases e já não nada a fazer (o que em princípio também não é verdade, luta-se sempre até ao fim)
Se além disso fizerem uns flyers, conseguirem meter nos televisores uns filmes do Charlot em vez do Relvas e Cia, aromatizarem o espaço purificando-o daquele intenso cheiro a hospital e enfermaria, meterem uma música de fundo entre a New Wave e Jason Mraz, seria perfeito.
Quem precisar muito muito de falar sobre estes temas encontra óptimos psicólogos e psiquiatras no hospital que adoram ouvir estas coisas.....
Há coisas tão simples!
Quem combate, agradece,
Manuel Forjaz"
Sim há coisas tão simples...e outras mais complicadas para quem frequenta o IPO em luta, fiquei a pensar hoje naquelas pessoas que vindas de longe para as consultas foram como nós avisadas em cima da hora, apanhadas quem sabe a meio caminho...ou já desde ontem em Lisboa para não perderem a hora, com que esforço e com que custos...fiquei a pensar no que tem mudado desde que o IPO se transformou em algo de familiar para nós...é um menos crescente em quase tudo...eficiência...recursos humanos...recursos materiais...pessoas nas salas de espera de exames e consultas...muitos já não têm meios para aí chegar...tudo isto num país cujo Estado esquece que «os doentes com cancro não são mortos com cancro.estão vivos...».
Bem hajam queridos amigos e obrigada!